A verdadeira história de ‘Tigers’

Como um bravo denunciante enfrentou um conglomerado internacional de fabricantes de fórmulas infantis para os bebês mais pobres do Paquistão. Emraan Hashmi interpreta o informante da Nestlé, Syed Amir Raza Hussain, no filme de direção do vencedor do Oscar, Danis Tanović’s.

TIGERS | Baby Milk Action – IBFAN – UK

Paloma Sharma | GQ INDIA | 21.12.2018 – Trauzido por IBFAN BRASIL

A verdadeira história de ‘Tigers’ é dolorosa: O filme de Emraan Hashmi – que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF), em 2014, foi lançado na TV a cabo ZEE5 em 21 de novembro de 2018. Encabeçada pelo escritor e diretor bósnio vencedor do Oscar Danis Tanović, ‘Tigers’ é baseado em uma história real que atinge bem de perto – do outro lado da fronteira no Paquistão. O filme analisa a vida de Ayan, um vendedor de produtos farmacêuticos, que acha que a fórmula de bebê que ele tem sido excelente em vender, está se tornando a causa da desnutrição e até da morte em bebês. Ayan da vida real de ‘Tigers’, Syed Amir Raza Hussain, estava esperando seu segundo filho – quando passou a agir contra a empresa que o empregou.

Tudo o que você precisa saber sobre a verdadeira história do filme dos ‘Tigers’
‘Tigers’ foi inicialmente intitulado White Lies. Embora tenha estreado no TIFF em 8 de setembro de 2014 e tenha sido exibido em festivais de cinema em Berlim e Nova York, o filme nunca foi lançado na Índia ate novembro de 2018. Mas, quatro anos depois, apesar de não ter sido lançado nos cinemas, o recurso baseado em fatos de Tanović finalmente terá uma audiência no subcontinente ao ser lançado na plataforma de canal televisivo a cabo OTT do Zee.

Quem é Syed Amir Raza Hussain?
Um ex-vendedor de produtos farmacêuticos, Syed Amir Raza Hussain juntou-se à fabrica da Nestlé no Paquistão em 3 de dezembro de 1994. Depois de um processo de entrevista que durou dois dias, Hussain foi escolhido em um grupo de 50 candidatos e recebeu a designação de “Delegado Médico”. Em abril de 1997, ele renunciou. Para um homem em sua posição, foi uma decisão estranha terminar uma carreira de alto potencial em uma empresa multinacional. No entanto, em seu relatório de 1999, intitulado “Fazendo lucros: Como a Nestlé Coloca Vendas à Frente da Saúde Infantil”, ele explicou suas razões.
Durante uma visita regular a um médico em Sialkot, Hussain viu uma criança com diarreia crônica e desidratação aguda sendo levada ao hospital. Embora o médico tenha corrido para tratar o bebê, ele morreu.
Relatórios médicos revelaram que a criança tinha quatro meses de idade, mas que só recebera leite materno durante um mês. Isso foi contrário aos seis meses de amamentação exclusiva e até dois (ou mais) anos de amamentação continuada, juntamente com alimentos adequados à idade até os dois anos de idade (ou mais), conforme prescrito pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Em vez disso, o bebê recebeu fórmula infantil, a conselho de outro médico. Sua mãe foi informada de que o leite artificial ajudaria a criança a ganhar peso e se tornar mais saudável; exceto sofrer de episódios de diarreia por 60 dias antes de morrer.
“Nas minhas próximas visitas, ele me explicou como a alimentação artificial estava afetando a vida de milhares de crianças no Paquistão”, disse ele sobre seu médico prescritor, um pediatra preventivo que apoiou a amamentação em detrimento da fórmula.
Assistir a um bebê morrer por causa de um produto que ele vinha promovendo e de práticas médicas em sua empresa agitou alguma coisa em Hussain, cuja esposa estava grávida do segundo filho. Ele não apenas renunciou, mas assumiu enfrentar um gigante global, tentando forçá-lo a mudar suas práticas – uma perseguição que levou ele e sua família ao caos.

Qual foi o escândalo da Nestlé Baby Food?
Embora os eventos por trás da história real dos ‘Tigers’ tenham ocorridos nos anos 90 e início dos anos 2000, o escândalo infantil da Nestlé e o subsequente boicote da Nestlé ocorreram desde a década de 1970. A Rede Internacional em Defesa da Amamentação (IBFAN), Save the Children e outros grupos de interesse público sustentaram que a fórmula para bebês estava causando problemas de saúde e morte em crianças em países em desenvolvimento e subdesenvolvidos. Os ativistas resolveram enfrentar esse problema não apenas pelo produto em si, mas pela maneira como estava sendo vendido.
A Nestlé foi acusada de comercializar seu produto para mães de comunidades economicamente atrasadas e de encorajar profissionais de saúde a usar fórmulas como substituto / melhoria para o leite materno, leite materno que estudos pediátricos provaram proteger a criança contra várias doenças.
Outro método de marketing antiético que os grupos de defesa alegam que a Nestlé usava era conseguir que os médicos promovessem a fórmula infantil como um substituto do leite para mães pobres em países do Terceiro Mundo que não tinham acesso a água potável. Esta água, quando misturada com a fórmula em pó, pode causar graves complicações de saúde nos bebês, eles alegaram. A IBFAN chegou a afirmar que o gigante Nestlé estava distribuindo amostras grátis de sua fórmula para bebês em hospitais e clínicas médicas frequentadas por mães pobres. Essas mães usariam essa fórmula para alimentar o bebê em vez do leite materno e, assim, acabariam perdendo a capacidade de amamentar com o tempo – formando um ciclo perigoso.
Essas práticas foram primeiramente levadas ao conhecimento público pelos esforços de duas organizações sem fins lucrativos britânicas. Uma revista independente chamada New Internationalist lança luz sobre a suposta estratégia da Nestlé em 1973. Em 1974, uma ONG britânica chamada War on Want publicou um livreto chamado The Baby Killer que foi uma “investigação sobre a promoção e venda de leites infantis em pó no Terceiro Mundo”.
Quando o Grupo de Ação do Terceiro Mundo, com sede em Berna, publicou uma tradução de The Baby Killer na Suíça, sob o nome de Nestlé tötet Babies (tradução: Nestlé Kills Babies), a empresa entrou com uma ação por difamação. Embora a Nestlé tenha vencido o julgamento que durou dois anos, os réus tiveram apenas que pagar uma multa de US $ 400 . O juiz também comentou que a empresa teria que modificar seus métodos de marketing. Esta questão ganhou ainda mais publicidade em 1976, quando a Time declarou os resultados do julgamento uma “vitória moral” para o Grupo de Ação do Terceiro Mundo e suas descobertas.
O caso abriu as portas do tribunal para que grupos de cidadãos, grupos de defesa e outros levassem mais empresas de fórmulas infantis para o embate – o que desencadeia o boicote a Nestlé. Da América, se espalhou para a Austrália, Nova Zelândia e Canadá. Partes da Europa seguiram. Em 1978, o Senado dos EUA analisou a promoção de substitutos do leite materno em meio a pedidos de regulamentação. Em 1977, a necessidade de um código de marketing foi registrada em um encontro da OMS e do UNICEF com a participação de delegados de todo o mundo. Após conferência de 1979 na OMS, seis dos grupos que foram representados no encontro formaram a IBFAN.
Finalmente, em 1981, quase uma década depois da publicação do New Internationalist, a Assembleia Mundial da Saúde (WHO) adotou o Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno. Quando a empresa de alimentos suíça (a maior do mundo) concordou em se conformar ao Código, em 1984, o Boicote da Nestlé foi suspenso.

Curiosamente, a verdadeira história de ‘Tigers’ começa apenas em 1997, com Syed Aamir Raza Hussain dando noticias das operações de promoção de fórmulas infantis da Nestlé no Paquistão. Mas levou mais cinco anos e muita coragem, por parte de Hussain, para finalmente ter as diretrizes do Código postas em lei em seu país de origem. Esta é a sua história.

Qual é a verdadeira história por trás do filme ‘Tigers’?
Syed Aamir Raza Hussain (Emran Hashmi) serviu como Delegado Médico (representante comercial) da Nestlé por 29 meses entre 1994 e 1997. Naquela época, ele estava compilando notas sobre os métodos da empresa e seu próprio desempenho, como parte de uma exigência de trabalho. Ao saber do que a fórmula infantil (chamada Lastavita no filme ‘Tigers’) estava prejudicando seus próprios clientes após sua visita a Sialkot, Hussain deixou a empresa.
Hussain enviou um aviso legal em carta para a Nestlé parar de fabricar seus produtos no Paquistão, retirar qualquer mercadoria existente das prateleiras em todo o país e demitir alguém que tivesse recorrido a meios antiéticos para vender a fórmula infantil. O aviso foi entregue em 12 de novembro de 1997, e Hussain deu à mega-empresa suíça 15 dias para colocar as coisas em prática. Anexado a este aviso legal, havia 80 páginas de anotações que registravam os médicos que prescreviam e os incentivos que receberam para empurrar a fórmula para bebês, bem como ordens antiéticas dos superiores de Hussain sobre como ele poderia conseguir mais médicos e vender mais produtos.
Ao receber o aviso legal, o Group Brand Manager (GBM) e o Executivo de Detalhamento de Área (ADE) que supervisionaram as operações de fórmula infantil da Nestlé no distrito de Hussain, pediram-lhe para desistir. Eles não apenas pediram mas o ameaçaram, e também ao médico do hospital de Sialkot, onde Hussain tinha visto o bebê morrer.
Ele foi ameaçado de retaliação legal se não retirasse seu aviso. Ele também foi avisado que iria “sofrer graves consequências”. Eles até lhe ofereceram um belo suborno. Mas ele não cedeu. Em vez disso, ele enviou uma cópia do aviso legal para a Rede de Defesa do Consumidor no Paquistão, uma ONG focada em medicina e saúde pública, ligada a IBFAN. Ele pediu proteção e meios financeiros para levar a empresa ao tribunal.
Embora a Rede não pudesse ajudar em ambos os pedidos, asseguraram-lhe que poderiam ajudá-lo a divulgar as informações que ele tinha – sempre que estivesse pronto para fazê-lo. Várias semanas depois, após planejar cuidadosamente as coisas, Hussain decidiu divulgar tudo.
Ele voou para a Europa para publicar um relato detalhado de seu tempo como vendedor de fórmulas infantis da Nestlé e o que as táticas de marketing da empresa supostamente estavam fazendo com algumas das crianças mais pobres de seu país de origem. Este é o relatório chamado Milking Profits, onde ele detalha a morte da criança que o levou a agir. Ele também incluiu memorandos detalhando práticas de vendas antiéticas, cartas autorizando presentes caros como subornos para médicos e até recibos bancários. No entanto, o relatório caiu em silencio. Enquanto isso, de acordo com The Star, Nestlé retratou Hussain como um encrenqueiro em sua narrativa e tentou despojá-lo de qualquer credibilidade.
Assim, enquanto sua família se escondia em casa por medo de que as ameaças de morte se tornassem realidade, Hussain viajou para o Canadá para dar a publico seu relatório de forma mais ampla e mais atenta. Lá, em 2001, ele pediu o status de refugiado. Mas o Conselho de Imigração e Refugiados rejeitou seu pedido porque ele não se qualificava como refugiado e acreditava que o governo paquistanês poderia protegê-lo. O Globe and Mail o citou dizendo que se ele fosse deportado, ele teria pavor de se tornar um alvo mais uma vez – contando que sua casa havia sido baleada por homens armados. No Canadá, Hussain recorreu da decisão. No Paquistão, seus pais faleceram.
Finalmente, em 2002, seus esforços foram recompensados. Comandado pelo então presidente geral, general Parvez Musharraf, o governo militar do Paquistão deu luz verde à Portaria para a Proteção da Amamentação e Nutrição da Criança Pequena. Esta é uma lei que coloca as diretrizes em pauta do Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno. Sem as denúncias de Hussain e a percepção que ele mostrou sobre a corrupção que colocava os lucros a frente da vida dos bebês, isso não teria sido possível.
Esse impacto positivo que ele pôde ter no sistema legal de seu país veio com um alto custo pessoal para Hussain. Ele teve que deixar sua esposa e filhos para trás, incapaz de vê-los por sete longos anos. No entanto, apenas uma parte da batalha está vencida. Uma pesquisa da Save the Children, realizada em 2012, uma década depois da aprovação da Portaria, mostra que cerca de 20% dos profissionais médicos do Paquistão admitiram ter recebido presentes de empresas que vendiam fórmulas infantis, incluindo a Nestlé.

Claramente, há um longo caminho a percorrer.
Hussain recebeu vários pedidos de cineastas para contar sua história, mas, de acordo com um relatório, eles acabavam sendo assustados pela Nestlé e desistiam. Mas Danis Tanović não foi um deles. Foi apenas uma quinzena antes de ‘Tigers’ estrear no TIFF (Festival de Cinema Internacional) em 2014 que o denunciante poderia finalmente encontrar algum conforto no fato de que sua história estava sendo contada. No final do filme, o público deu a ele uma ovação de pé. Hussain chorou.
Passados 21 anos, sua história finalmente chega às audiências na Índia e no subcontinente asiático, com ‘Tigers’ exibido no ZEE5.


VEJA O TRAILLER DE ‘TIGERS’