Capa de revista com mulher a amamentar abre debate na Índia

Capa de revista com mulher a amamentar abre debate na Índia

A escolha insere-se numa campanha para combater o estigma associado à amamentação em espaços públicos.

LILIANA BORGES | PÚBLICO | PORTUGAL | 01.03.2018

Uma revista indiana escolheu para a capa a imagem de uma modelo a amamentar uma bebé. O objectivo da publicação era combater o estigma acerca da amamentação em público. A escolha da imagem, que mostra parte do peito da modelo descoberto, visa responder a um episódio de bullying que vitimou uma jovem mãe indiana.

A fotografia de actriz e modelo indiana, Gilu Joseph, surge acompanhada por uma mensagem dirigida aos habitantes do estado indiano onde a revista Grihalakshmi é publicada, Kerala. “Mães dizem a Kerala – não olhem, queremos amamentar”, lê-se. Por ser na Índia, um país socialmente conservador, especialmente no que toca ao papel das mulheres, a decisão é descrita como “corajosa”.

A capa insere-se numa campanha que promove a amamentação, inspirada na publicação de uma mãe de 23 anos, Amritha, a alimentar o filho de um mês e meio. A fotografia foi publicada pelo marido em Janeiro, para abrir o debate sobre a amamentação em espaços públicos no país. O resultado foi um ataque — de homens e mulheres —, que insultaram a jovem mãe indiana.

Numa entrevista à revista, Amritha conta que, ainda no hospital, foi criticada por estar a amamentar o filho sem cobrir totalmente as mamas. “Alguns até me disseram que se o fizesse ia secar o leite dentro de pouco tempo”, descreve. “São superstições velhas, que ainda continuam a ser espalhadas pelos mais jovens”, prossegue. “Algumas pessoas atiravam-me toalhas enquanto estava a amamentar o meu bebé e vinham verificar se eu a tinha tirado.”

“Muitas vezes, as mães estão com os filhos a chorar de fome e não fazem nada porque não podem amamentar em público. Isso tem de mudar. A amamentação é um motivo de orgulho e as mulheres devem ter a liberdade de alimentar as crianças livremente. Não precisam de espaços escondidos para amamentar”, argumenta o editor da revista, Moncy Joseph.

“Quando as mulheres são reencaminhadas para um quarto para amamentar, é como se a sociedade estivesse colectivamente a ensinar-nos a esconder este fenómeno natural. Isto tem de mudar”, acrescentou Rose Maria, uma das subeditoras da revista.

Porém, a campanha não está a ser bem recebida, tanto por aqueles que são contra a amamentação em público, como também por quem considera errada a escolha de uma modelo para a campanha, ao passo que a verdadeira mãe surge nas páginas do interior da revista. Uma blogger, Anjana Nayar, escreve que a decisão demonstra um “sensacionalismo e exploração baratos”.

Outros preferem apontar que este é um caminho feito de “pequenos passos”.

A amamentação é defendida pela Organização Mundial de Saúde, que destaca a importância do leite materno durante os primeiros seis meses de vida. Apesar disso, existem ainda relatos de mulheres que se dizem observadas ou julgadas quando amamentam em público.

Em Junho de 2014, a imagem de uma mulher afro-americana a amamentar o filho durante a graduação nos EUA tornou-se viral. De acordo com dados norte-americanos à data, as mães afro-americanas tendem a amamentar menos do que as restantes. No entanto, esta é uma tendência que parece estar a mudar.

No mesmo ano, o México lançou uma campanha oficial com mulheres despidas da cintura para cima. A cobrir as mamas lia-se a frase: “Não lhes vires as costas, dá-lhes peito”. Os cartazes eram acompanhados de mensagens com os benefícios da amamentação. A campanha mereceu críticas por sexualizar a imagem das mulheres, condenando aquelas que não amamentavam, em vez de se focar nos benefícios do leite materno.

O tempo durante o qual se amamenta também é um tema de debate. Em Maio de 2012, a capa da revista Time mostrava uma mulher de 27 anos a amamentar o filho de três anos. A capa foi tão mal recebida que a mulher, Jamie Grumet, recebeu ameaças de morte.