Conheça casos de mães que amamentaram os filhos por mais de três anos

O aleitamento após os 2 anos é cercado de preconceitos e muitas mulheres se sentem julgadas, até mesmo pelos familiares

Publicado em: ClickBebê | 13.11.2017

Embora a recomendação de amamentar o bebê até os dois anos ou mais seja amplamente incentivada por várias órgãos de saúde, a amamentação prolongada ainda causa estranhamento. Isto, inclusive, incomoda a muitos maridos ou companheiros, que de certa forma sentem ciúme. É comum essas mães ouvirem questionamentos, julgamentos e até comentários maldosos de parentes, conhecidos e estranhos. Perguntas e palpites do tipo: ‘Mas ele não está muito grande para ainda mamar?’; ‘Você não sente vergonha’; ‘Ele vai ficar muito mimado’.

Para muitas mulheres e especialistas, é preciso acabar com esse preconceito. Afinal, é uma escolha da mulher, assim como devem ser respeitadas as que optaram por não amamentar pelos mais diversos motivos.

Sem contar que a amamentação prolongada traz vários benefícios para a saúde e imunidade da criança, além de aumentar o vínculo entre mãe e filho. E muitas, certas de sua decisão, não estão dando ouvidos à opinião alheia, como mostram os dados da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Em dez anos, a taxa de mulheres que optam pela amamentação prolongada subiu de 25% para 32%. A bibliotecária Roberta Kelly Amorim Gomes, 35 anos, é uma dessas mulheres que conseguiu amamentar o filhos até os 3 anos e meio de idade. Desde a gestação, ela participava de um grupo de mulheres para discutir parto natural, entre outros assuntos, e já sabia dos inúmeros benefícios do leite materno.

Quando seu filho Samir completou dois anos, ela achou natural continuar a oferecer o peito, já que proporcionava um prazer enorme aos dois. No entanto, nesse tempo precisou ouvir comentários e julgamentos até da mãe e do marido. “Minha mãe sempre comentava que o Samir estava grande demais para mamar no peito e que isso iria ‘estragar’ a educação dele. Meu marido, a mesma coisa. Qualquer desobediência, a culpa era do peito, que o deixava mimado”, conta Roberta, que precisou de muita conversa nesse longo período, mas conseguiu resistir firme às críticas.

Roberta amamentando Samir/ Arquivo pessoal

Falsas crenças

Para os que são contra, a crença é de que o leite materno já não traz nenhum benefício nutricional após os dois anos de idade e que, além disso, prejudicaria o desenvolvimento da autonomia da criança, que se tornaria muito dependente da mãe.

O pediatra Moises Chencinski, presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo, desmente essas afirmações e defende que, enquanto a amamentação for positiva para a mulher e para a criança, não é necessário a interrupção.

“Com toda certeza o aleitamento materno é importante depois dos dois anos de idade, tanto do ponto de vista nutricional, quanto do imunológico. Os anticorpos e nutrientes do leite continuam existindo e sendo muito importantes”, afirma o médico Moises.

Para se ter uma ideia, segundo dados do Unicef (Fundo das Nações Unidas Para a Infância) e do Ministério da Saúde, 500 ml de leite materno representam 95% das necessidades de vitamina C durante o segundo ano de vida, além de 38% das de proteína, 45% das de vitamina e 31% do total de energia diária que uma criança dessa idade precisa. “Para a mãe, a principal vantagem de continuar amamentando são os benefícios do vínculo e da proteção contra câncer de mama e de ovário”, completa Moises.

“A criança ganha mais segurança ao ser amamentada quando ela tem essa necessidade de mamar”, completa Moises, que rebate as críticas sobre a suposta dependência da criança.

Por experiência própria, a nutricionista Dione Pavan, de 32 anos, também só vê benefícios na prática. “Acredito que a amamentação ajudou bastante no meu relacionamento com as minhas duas filhas. Também são nítidos os benefícios em relação à saúde que a amamentação prolongada proporcionou”, acredita Dione, que amamentou sua filha mais velha, Lívia, até os dois anos e dois meses de idade, quando já estava no quinto mês de gestação da sua filha mais nova, Ariane. A caçula, por sua vez, já está com um ano e sete meses e ainda mama, sem data para parar.

Dione e suas filhas, Lívia e Ariane/ Arquivo pessoal

“Relacionar amamentação com criança mimada é um mito. É natural que a criança sempre recorra aos pais ou a seus cuidadores como um porto seguro. E criança amamentada consegue desenvolver grande autoconfiança por causa do vínculo com a mãe”, argumenta a psicóloga e especialista em aleitamento materno Gabriela Sintra Rios, responsável pelo grupo gratuito de Aleitamento Materno da Casa Curumim.

Além do vínculo forte, existem mais benefícios. Pesquisas relacionam o maior período de amamentação com maiores níveis de inteligência na vida da criança. Um estudo feito na Nova Zelândia, pela Escola de Medicina de Christchurch, mostrou que crianças amamentadas por mais tempo conseguem melhores resultados escolares. Já, no Brasil, uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Pelotas e divulgada em 2015 na revista The Lancet Global Health indicou que amamentar por mais tempo pode trazer benefícios à criança até a sua vida adulta, como maiores níveis de QI, escolaridade e salário. Para chegar à conclusão, os autores do estudo analisaram, 30 anos depois, o desenvolvimento de mais de 3.400 pessoas nascidas no ano de 1982.

Desmame

Não há um momento ou uma idade correta para o desmame. Tudo vai depender das necessidades da criança e da disposição da mãe. Quando a amamentação passa a ser desconfortável para um dos dois, é sinal de que o fim do aleitamento está próximo.

Para a assistente administrativa Fátima Cristine da Silva, 33 anos, o desmame do seu filho mais velho, aos 3 anos e meio, foi tranquilo e natural. Ela estava no quinto mês de gestação da sua segunda filha – hoje com seis meses – quando o primogênito perdeu o interesse pelo peito. “As mamadas foram diminuindo naturalmente até sobrar apenas a noturna. Fui incentivando e conversando com ele até conseguir colocá-lo para dormir sem a necessidade do peito. Foi bem tranquilo e sem traumas para nenhum dos dois”, relata.

Embora Fátima tenha tido uma boa experiência, não é incomum ouvir relatos de episódios de birra e escândalo, às vezes até com a criança subindo a camisa da mãe para chegar ao peito. “Nesse caso, paciência e uma boa conversa vão ajudar a criança a compreender a situação de forma mais tranquila”, diz a psicóloga Gabriela Sintra.

Fátima e sua família/ Arquivo pessoal

E por mais que o cenário normalmente imaginado seja aquele em que a criança ainda quer mamar enquanto a mãe não deseja mais, a situação inversa também pode acontecer. Algumas se apegam muito ao vínculo promovido pela amamentação e têm dificuldades de deixar esta fase.

Foi o caso da Roberta, mãe do Samir. Num dia em que a criança estava cansada e foi dormir sem mamar, Roberta desatou a chorar. “No dia seguinte, dei o peito sem perguntar se ele queria. Na verdade, eu mesma precisei de um ‘desmame’. Tive medo de enfraquecer o vínculo e percebi que precisava de mais um tempo. Depois de alguns meses, ele desmamou naturalmente e aí eu já estava preparada”, admite Roberta.

“O fato é que algumas mulheres podem se sentir ‘livres’ quando ocorre o fim da amamentação e, outras, ao contrário, podem viver um sentimento de que falta algo. Às vezes, fazer o desmame gentil ou mesmo gradual nem sempre é fácil para a mãe, justamente por conta dessas questões emocionais e práticas. Por isso, a presença da família é muito importante para apoiar e ajudar mãe e bebê a passarem por este processo sem grandes complicações”, recomenda Gabriela Sintra.

“Hoje, podemos ver as mulheres mais empoderadas e confiantes diante dessa escolha e acredito que a tendência do apoio a essa decisão é crescente. Podemos ver grupos de mães, profissionais da saúde e de toda a sociedade apoiando cada vez mais a amamentação”, opina a psicóloga Gabriela.

Fontes:

Moises Chencinski, pediatra e Presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP- 2016/2019) (CRM/SP 36349)

Gabriela Sintra Rios, psicóloga especialista em aleitamento materno e responsável pelo grupo gratuito de aleitamento materno da Casa Curumim (CRP/SP 78088)