Danone deu orientação nutricional controversa a 300 mil crianças

Projeto 1,2,3 Saúde! prescreve três porções de queijo, leite ou iogurte ao dia, uma orientação que não é consensual na comunidade científica

JOÃO PERES | O JOIO E O TRIGO | 4 DE ABRIL DE 2018

Um projeto da Danone deu orientações nutricionais controversas a pelo menos 300 mil alunos da rede pública de ensino em várias cidades do país. Apesar da promessa de falar sobre hábitos saudáveis, o 1, 2, 3 Saúde! enfatizava o consumo de lácteos, justamente o carro-chefe da corporação francesa.

O programa consistia de uma peça de teatro e de materiais didáticos distribuídos a professores e alunos, e foi desenvolvido em parceria com secretarias estaduais e municipais de educação entre 2013 e o primeiro semestre do ano passado, quando, sob pressão, a Danone decidiu abortá-lo.

– Lácteos vem de uma palavra muito antiga, lactis, que significa leite – dizia a professora Bete Palavra durante a peça O Fabuloso Mundo das Descobertas.

– Entendi. Lácteos contêm leite – respondia Joãozinho, o personagem principal.

– Isso mesmo! E, se você quer ficar ágil, forte, ter saúde e manter essa curiosidade e imaginação, você precisa de três porções de lácteos ao dia.

O projeto poderia ser considerado controverso se apenas induzisse ao consumo de lácteos. Porém, o 1, 2, 3 Saúde! dava um passo além e prescrevia de maneira categórica a necessidade de consumir três porções desses produtos por dia, sob pena de sofrer problemas de saúde no curto, no médio e no longo prazos. Não existe consenso científico que respalde esse tipo de afirmação, apesar do esforço constante das fabricantes de lácteos em bancar pesquisas favoráveis a seus interesses. Fosse assim, não haveria dietas veganas. E a Ásia, que concentra 60% da população mundial e via de regra tem uma baixíssima ingestão de lácteos, não conseguiria ser ágil, forte e criativa como Joãozinho.

A iniciativa chegou a ser investigada pelo Ministério Público do Distrito Federal a pedido do Instituto Alana. A assessoria de imprensa do MP informou que uma reunião que seria realizada com a empresa em março foi cancelada devido ao fim do programa. Há a possibilidade de arquivamento do inquérito aberto em 2016.

Originalmente, o projeto se chamava 1, 2, 3 Lácteos!, mas, em 2016, adotou o nome que carregou até o encerramento. E somou à lista de parceiros a Tetra Pak, do setor de embalagens, e a Palmolive, do segmento de produtos de higiene. Apesar disso, a ênfase no consumo de leites, queijo e iogurte se manteve como mote.

“Era um projeto sobre um objetivo escolar importante que era ajudar as crianças a fazerem escolhas. As escolhas apareciam na forma de possibilidades de profissões adultas”, contou Lilian Faversani, educadora que coordenou a elaboração do material pedagógico original. Ela relata que à época o trabalho foi balizado por um documento da Organização Mundial de Saúde (OMS) que sugeria o consumo de três porções de lácteos ao dia nos países em desenvolvimento.

“No segundo ano de vida do projeto, a Danone fez uma alteração das ilustrações. Colocaram ilustrações de potinhos de Danone. A Danone nos chamou e pediu que fizéssemos atividades que significassem em algum momento a distribuição de iogurtes na escola. Foi então que eu saí do projeto e pedi que meu nome fosse retirado dos materiais, inclusive. Não concordo em absoluto.”

Questionada sobre essas afirmações, a Danone optou por enviar uma resposta genérica. “A Danone Brasil ressalta que suas ações de comunicação atendem à legislação brasileira vigente e refletem a missão da companhia em levar saúde ao maior número de pessoas. Entre os anos de 2015 e 2016 o programa 1,2,3 e Saúde levou informação e conhecimento sobre a importância de uma boa alimentação de forma lúdica e gratuita às escolas de todo país. A Danone reitera seu compromisso em contribuir para que os brasileiros adotem hábitos de vida e alimentares mais saudáveis.”

A confiança na escola

Conversamos com algumas pessoas que participaram do 1, 2, 3 Saúde! e não temos nenhum motivo para duvidar da boa-fé delas. Pelo contrário, é de esperar que a grande maioria tenha trabalhado com ótimas intenções. E é possível que algumas crianças tenham extraído dessa história ensinamentos que vão além do consumo diário de três porções de lácteos. No entanto, as próprias entrevistas realizadas para esta reportagem mostram como, em se tratando de ambiente escolar, é complexo encontrar a linha que separa publicidade de ação educativa.

“Figura como projeto educativo. Então, é muito mais difícil desenvolver um senso crítico sobre essa ação”, lamenta Ekaterine Karageorgiadis, coordenadora do projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana. “As crianças confiam nos educadores. Estão num espaço de cuidado, de responsabilidade. Então, quando as mensagens comerciais acontecem dentro do espaço escolar, são reforçadas por essas pessoas que estão ali para cuidar das crianças.”

Apesar de a empresa ser a autora da ideia original, a gestão da iniciativa foi repassada à OAK Educação e Meio Ambiente, localizada na zona sul de São Paulo e especializada na captação de recursos via leis de incentivo fiscal. Procurada, a OAK disse que por motivos contratuais está proibida pela Danone de falar sobre o projeto, o que contraria a versão oficial da fabricante de lácteos de que era apenas patrocinadora.

No total, a corporação doou (e recebeu de volta em abatimento de impostos) R$ 1,2 milhão, somados a R$ 400 mil da Tetra PAK e a R$ 120 mil da Palmolive.

Tudo indica que o projeto foi bom para os negócios. Um vídeo de 2015 relatava que 45% dos participantes diziam ter aumentado o consumo de lácteos – 46% declaravam ter aumentado o consumo de vegetais, é bom que se diga. “A gente tinha muita vontade de trabalhar educação alimentar desde a infância porque sabe que é lá que os hábitos são formados”, dizia Maria Prado, gerente de Desenvolvimento de Categoria da Danone.

O projeto abordava do início ao fim supostos danos relacionados a um baixo consumo de lácteos em cada etapa da vida. O eixo central do material didático consistia da apresentação de oito profissões.

O pediatra mostrava que o cálcio dos lácteos é fundamental para um crescimento saudável. O biólogo falava sobre bactérias boas e más. O geriatra alertava que um baixo consumo de cálcio ao longo da vida está associado a osteoporose na terceira idade. A professora contava sobre a etimologia de palavras relacionadas a leite e afins.

Vamos ver se você sacou a lógica. A nutricionista ensinava sobre… Se você respondeu qualquer coisa diferente de “lácteos”, sugerimos voltar alguns parágrafos na leitura.

É quando chegamos ao sociólogo que as coisas ficam mais interessantes. As crianças deveriam exercer a função do sociólogo, o que incluía entrevistar os pais sobre o consumo de… Beleza. Sem serem informadas ou remuneradas, essas crianças fizeram pesquisa de mercado para a Danone.

O 1, 2, 3 Saúde! tinha ainda alguns cartazes. Um deles falava sobre cuidados gerais com o corpo, o que inclui os ossos: “Produtos lácteos, como queijo, leite e iogurte, contêm nutrientes que ajudam o corpo a deixar os ossos mais fortes e saudáveis.”

No cartaz abaixo, a situação começa a ficar mais complicada do ponto de vista científico. Primeiro, há uma reinterpretação do Guia Alimentar para a População Brasileira, que recomenda fazer da alimentação in natura a base da dieta e evitar o consumo de ultraprocessados. Curiosamente, os empresários do setor de laticínios foram uma das vozes mais fortes quando o documento-base do Ministério da Saúde foi elaborado, em 2014. De lá para cá, não faltaram tentativas de dar a ele outro significado. O material do 1, 2, 3 Saúde! é um exemplo: “Use alimentos in natura e evite alimentos muito processados.”

Essa é a lista de ingredientes do Danoninho: “Leite desnatado, açúcar, preparado de morango (água, frutose, polpa de morango, fosfato tricálcico, citrato de cálcio, amido modificado, zinco, vitamina E, ferro, maltodextrina, vitamina D, acidulante ácido cítrico, espessantes goma xantana, carboximetilcelulose e goma carragena, aromatizante, conservador sorbato de potássio e corante natural carmim cochonilha), creme, cálcio, cloreto de cálcio, fermento lácteo, quimosina, estabilizantes goma guar, carboximetilcelulose, goma carregena e goma xantana.” Ele é “muito processado” e deve ser evitado? Na visão da Danone, não.

O mais curioso é que o cartaz propõe um porcionamento por grupo de alimentos, o que vai contra a filosofia do Guia. O material do Ministério da Saúde oferece uma linha de raciocínio sobre como se alimentar e evita a abordagem por nutrientes e grupos de alimentos. Afinal, se você seguir a recomendação de fazer de alimentos in natura a base de sua dieta, não precisa se preocupar em ser um expert em nutrição.

O porcionamento, por outro lado, é difícil de executar no dia a dia. O que é uma porção de carne? Uma porção de fruta é uma fatia de melancia, uma maçã ou uma manga? E pão francês, eu devo comer inteiro ou a metade?

Vamos pegar a recomendação do 1, 2, 3 Saúde! de ingerir seis porções diárias de “batata, arroz, massas, pão, mandioca”. Há produtos de qualidade totalmente diferente aí no meio. Eu posso entender que estou autorizado a comer seis porções de macarrão instantâneo e pão de forma industrializado. Ou que devo ficar apenas na mandioca.

O material fala também em três porções de queijo, leite ou iogurte. E deixa tudo mais controverso com um tabuleiro que deve ser preenchido diariamente pelos estudantes, seguindo fielmente as recomendações de porcionamento. “SE SOBRAREM ESPAÇOS VAZIOS NO TABULEIRO NO FIM DO DIA? Significa que ficou faltando consumir algum grupo de alimento ou nutriente. Não se preocupe se isso acontecer! Basta prestar atenção para que não aconteça nos demais dias da semana.”

Levada ao pé da letra, essa orientação induz crianças que consomem mais de três porções diárias de frutas ou legumes a reduzirem o consumo. Na via contrária, incentiva o consumo de produtos que não são imprescindíveis e que podem até fazer mal.

“Os lácteos podem aportar nutrientes que são importantes, mas nada que nos obrigue a consumir determinadas porções por dia para que ofereça o que a gente precisa a uma nutrição adequada”, diz Fabio Gomes, assessor regional em Nutrição e Atividade Física da Organização Panamericana de Saúde (Opas). Ele considera que os esforços publicitários desse segmento econômico transformaram o leite num superalimento e transmitiram a ideia de que é a única fonte de cálcio possível – no Joio, não fazemos nutricionismo, de modo que o melhor é procurar em outras páginas informações sobre boas fontes de cálcio.

“Lácteos são o leite? Ou um produto que contém leite, açúcar, espessantes, corantes e outras coisas que vão junto?”, questiona. “Pensando que a indústria de lácteos tomou essa vertente de usar cada vez menos alimentos e cada vez mais cosméticos, para reduzir o custo de produção, isso reforça a necessidade de pensar lácteos como um alimento da forma como foi desconfigurado, como uma fonte que desvirtua a alimentação e a recomendação de uma alimentação saudável.”

A Opas definiu em 2016 um perfil de nutrientes que permite entender quando um produto tem excesso de sal, gordura ou açúcar. O Danoninho, carro-chefe da Danone, receberia dois selinhos: alto em açúcar e em gorduras saturadas. O investimento em publicidade foi tão bem-sucedido que é, até hoje, considerado um item fundamental para um crescimento saudável. Em um estudo feito em 2015, mães argentinas citam o Danoninho como obrigatório na dieta dos filhos e declaram a ideia de que estão fazendo um bem ao comprá-lo.

O Danette, também muito consumido entre os pequenos, tem excesso de açúcar e de gorduras saturadas, segundo os critérios da Opas.

A reputação do leite como fonte de cálcio e o papel desse cálcio como imprescindível para evitar problemas ósseos foram grandes conquistas da indústria leiteira, obtida com fartos investimentos em pesquisas científicas. Tentamos encontrar artigos que revisem as evidências existentes, mas o conflito de interesses é tão marcado nessa área que fica difícil saber se o estudo é ou não confiável.

Preferimos ficar, então, com um documento da Organização Mundial de Saúde chamado “Exigências de vitaminas e minerais na nutrição humana”. O primeiro porém em relação ao cálcio é de que as recomendações variam enormemente de acordo com uma grande gama de fatores, de modo que é um erro transpor as conclusões de um país para outro. As pesquisas estão mais avançadas nas nações do Norte, logo, não há um padrão pré-definido de consumo para populações do Sul – o que inclui o Brasil.

O documento alerta que há incertezas sobre a correlação entre consumo de cálcio e osteoporose. “Ainda que se precise enfatizar que uma deficiência de cálcio e um balanço negativo de cálcio deve levar cedo ou tarde a osteoporose, isso não significa que toda osteoporose pode ser atribuída à deficiência de cálcio. Pelo contrário, pode haver mais osteoporose no mundo por outras causas.”

Limites

O projeto da Danone é emblemático sobre os limites da presença de empresas no ambiente escolar. A corporação alega que se trata de uma iniciativa “unbranded”, ou seja, que não há exposição da marca.

“O que me chama mais atenção é o resultado”, diz Ekaterine Karageorgiadis, do Instituto Alana. “Analisei mais de três mil fotos, desenhos, redações. É claro que existe uma mensagem de marca. Se não, a criança não escreveria uma redação sobre o papel da Danone. A criança não desenharia um potinho vermelho e escreveria que para ser saudável é preciso consumir lácteos três vezes ao dia. Não tiraria uma foto que diz Danone, Danone, Danone. Não teria uma premiação com produtos da empresa sobre uma mesa.”

Conversamos com gestores públicos municipais envolvidos no 1, 2, 3 Saúde! A história é conhecida. Primeiro, as redes públicas carecem de recursos. Segundo, de projetos. Um material didático bonito, casado a uma peça de teatro bem produzida, falando sobre hábitos saudáveis, só pode ter caído do céu. É uma chance de romper com a rotina e de falar sobre assuntos que muitas vezes extrapolam os conhecimentos dos professores.

“Era um material muito bacana sobre saúde e alimentos. Material muito bom mesmo. Falando de uma questão muito importante”, contou Mario Augusto Marques, diretor de Projetos da Secretaria de Educação de Poços de Caldas, em Minas Gerais, cidade que abriga uma unidade da Danone. “Foi um teatro de alto nível. Atores excelentes. Isso me chamou bastante atenção. Foi uma parceria de sucesso total.”

Soma-se a esse cenário o oferecimento de um prêmio às escolas e às crianças que desenvolvessem os melhores trabalhos. Não sobre vida saudável, mas a respeito da importância dos lácteos. Há uma série de vídeos no YouTube nos quais se pode conferir os resultados auferidos pelo projeto.

Essas iniciativas surfam também sobre um imaginário de desinteresse e bondade inerente do setor privado. É uma das linhas de raciocínio da resposta que a Danone enviou ao MP.

O documento adota um tom forte contra o Alana, criticado por uma atuação “deplorável” com base em acusações “levianas” e em “desvarios”, num “tresloucado pedido”. A empresa tenta se apegar à ideia de que tem um portfólio saudável, o que, claro, coloca o Danoninho como um produto desenvolvido para combater “carências nutricionais”.

“Ao contrário do Alana, a Danone não acredita que seja recomendável que as crianças fiquem absolutamente isoladas e alheias à publicidade até os doze anos de idade.”

É um argumento que os integrantes do projeto Criança e Consumo ouvem com frequência. “A gente justamente não quer as crianças dentro da bolha do consumismo. A gente quer que as crianças se desenvolvam como crianças e tenham acesso a muitas informações preparadas para elas”, responde Ekaterine.

A Danone tem um compromisso voluntário sobre publicidade voltada a crianças. A empresa diz não praticar a distribuição de produtos em escolas, “a menos que seja solicitado pela instituição de ensino ou para fins educativos e esportivos”. Faz parte da proposta não motivar “hábitos pouco saudáveis” e não minar a autoridade dos pais. A corporação se autoriza ainda a fazer publicidade de produtos para crianças de três a doze anos, desde que sejam considerados por ela como saudáveis – é o caso do Danoninho, com 6,1 gramas de açúcar por potinho.

Recentemente, o Procon do Paraná impôs uma multa de R$ 108 mil à Danone por publicidade direcionada a crianças, num caso aberto em 2015 também a pedido do Alana.

No documento em que se defende das acusações do instituto, a Danone diz que a constatação sobre a deficiência de lácteos nas escolas brasileiras surgiu em um estudo. O Nutri-Brasil Infância foi financiado pela própria corporação. E coordenado pelo pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg, integrante do International Life Sciences Institute (ILSI), organização bancada pelas empresas de ultraprocessados. Basicamente, o ILSI coordena trabalhos científicos que ajudem as financiadoras, o que tem resultado em contestações cada vez maiores.

A parceria entre Fisberg e Danone vem desde pelo menos os anos 1990, quando uma iniciativa em escolas públicas incentivou o consumo de Danoninho sob o argumento de reduzir a prevalência de anemia.

Em agosto passado, o médico apresentou os desdobramentos do Nutri-Brasil em uma sessão patrocinada pela Danone no Congresso da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban). Profissionais de saúde foram encorajados a aumentar o consumo de lácteos das crianças.

A Sban, por sua vez, era parceira do 1, 2, 3 Saúde! “Sabe-se que é na infância que se estabelecem os hábitos alimentares. A escola, por abarcar o contexto familiar, comunitário e social é o ambiente ideal para consolidar os conceitos da prática alimentar adequada. Por isso, temos muito orgulho em apoiar o projeto 1,2,3 e Lácteos!”, disse Olga Amâncio, presidente da Sban, num material de divulgação da iniciativa.

Todas as cadeiras do Congresso da Sban estavam estampadas com o logo do Viva Lácteos, associação que reúne os fabricantes do setor – Danone incluída. A Sban tem ainda emitido documentos e publicado vídeos em defesa de iogurte, queijo e leite, produtos com as vendas afetadas pelo surgimento de dietas sem lactose.

Contudo, se depender de Joãozinho, o futuro do leite está garantido.