Falta de informação prejudica a prática da amamentação em locais públicos

Falta de informação prejudica a prática da amamentação em locais públicos

Rafael Neves/Metro Brasília | 22 setembro 2018

Mamaço em Santo André, em julho, após mãe ter sido impedida de amamentar em terminal de ônibus – Carla Carniel/Folhapress

A Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária) foi criticada na internet, no início do mês, por um deslize de comunicação. O órgão divulgou um informativo garantindo que mães podem amamentar livremente em todos os aeroportos da rede, mas elencou, entre as orientações, “utilizar fraldinha durante a amamentação ou batas para cobrir o peito”.

“Somos mamíferos. Quem se incomodar com a amamentação que enfie um pano ou fraldinha na própria fuça e deixe o bebê se alimentar em paz”, comentou uma usuária na página de Facebook do órgão. A Infraero revisou a nota e suprimiu o trecho após o caso vir à tona.

A disseminação de informações que desincentivam o aleitamento é hoje, segundo profissionais da saúde ouvidos pelo Metro Jornal, uma das principais ameaças à consolidação da prática no Brasil. Estas barreiras são o tema da terceira reportagem da série “O melhor alimento do mundo”, que traça o panorama atual da amamentação no Brasil e no mundo.

O poder público pode ser, mesmo que de forma não intencional, parte do problema. Em 2014, por exemplo, o Ministério da Saúde foi informado da distribuição de fórmulas infantis e até de leite em pó para mães de crianças de até 2 anos em unidades de saúde municipais. A prática é condenada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) por desencorajar a amamentação, e o ministério precisou emitir uma nota técnica para dar um ‘puxão de orelha’ nas prefeituras.

“A gente costuma ver programas assim próximos do período eleitoral. Não pode ocorrer. Uma mãe que está sendo incentivada a amamentar vê a outra saindo da unidade com a fórmula e fala: eu também quero, porque se por acaso não der certo eu já tenho a minha latinha”, explica Fernanda Monteiro, coordenadora de aleitamento do Ministério da Saúde.

Cultura
Especialistas concordam que o Brasil tem eliminado mitos que desencorajam a amamentação, mas afirmam que a vigilância sobre as informações precisa ser constante.

“A percepção das mães sobre a importância do aleitamento vem se consolidando”, avalia a nutricionista Marcela Brecailo, especialista em nutrição materno-infantil. “Mitos de que o leite materno é fraco, de que o peito cai, de que a fórmula é melhor porque deixa o bebê gordinho, eram fortes há uns 20 anos, mas têm sido superados”, diz.

Brecailo investigou, em sua tese de mestrado na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), os motivos que levam ao desmame antes do sexto mês de vida da criança. “As mães sabem a recomendação de cor. Mas na parte prática os problemas aparecem. Não são só as mulheres que têm que voltar a trabalhar fora que sofrem. Muitas das que ficam em casa não têm apoio do companheiro e têm que amamentar já sobrecarregadas de tarefas domésticas”, afirma.

“A decisão de amamentar é sempre das mães. Se ela, apesar de todo o aconselhamento, optar pelo uso de fórmulas, o nosso acompanhamento vai ser o mesmo. Mas tem que ser uma decisão informada”, afirma o médico Moisés Chencinski, do departamento de Aleitamento Materno da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria).

Governo incentiva engajamento de ‘militância’
A coordenadora de aleitamento do Ministério da Sáude, Fernanda Monteiro, avalia que o apoio à amamentação é uma das políticas públicas que mais contam com apoio da sociedade civil. “A gente olha no Brasil inteiro o trabalho da militância da amamentação, e as pessoas fazem coisas inacreditáveis com os próprios recursos”, conta Monteiro. “Temos classes de profissionais da saúde envolvidas com aleitamento materno, temos grupos de mães que promovem as práticas, tanto indo a campo quanto por redes sociais, e boa parte desse trabalho é voluntário. A gente vê uma política muito bem estabelecida que consegue andar com as próprias pernas, tendo recursos ou não”, avalia.

A nutricionista e terapeuta Carolina Belomo, que auxilia na elaboração das políticas públicas do ministério, avalia que a rede de apoio à prática é ampla, mas esbarra em obstáculos. “Os tutores formados nas oficinas da Amamenta e Alimenta – principal estratégia de promoção ao aleitamento do ministério – às vezes não têm a força de chegar na unidade de saúde e de falar para o médico da importância de tentar o manejo da amamentação antes de usar as fórmulas”, exemplifica.

Um dos termômetros do engajamento voluntário, segundo Fernanda Monteiro, é o aumento constante de doadoras de leite humano no país. Em 2007, 140 mil mulheres doaram, em conjunto, 150 mil litros de leite. Dez anos depois, em 2017, houve quase 185 mil doadoras, e o volume arrecadado saltou para 215 mil litros.

No Brasil, o estoque de leite doado atende apenas bebês prematuros ou de baixo peso. Apesar do aumento ano a ano, o estoque supre hoje aproximadamente 60% da demanda para os recém-nascidos internados nas UTI neonatais do país, segundo a pasta. Uma tática usada pelo poder público para recrutar mais voluntárias é levar mães de recém-nascidos saudáveis a uma dessas UTIs. “Tem funcionado. Elas visitam os prematuros e ficam sensibilizadas”, conta Monteiro.

A coordenadora avalia, ainda, que o respeito da sociedade à figura da mãe é um trunfo importante na promoção ao aleitamento. “Nós vemos mães, grandes doadoras de leite, que são quase veneradas em suas comunidades. Quando o carro passa na casa delas para buscar o leite – a coleta pode ser feita em domicílio –, a vizinhança toda fica acompanhando. Elas se sentem importantes, com o poder de salvar vidas”, afirma a coordenadora.