Semana da Amamentação: os benefícios de prolongar o aleitamento

Semana da Amamentação: os benefícios de prolongar o aleitamento

Quebrando tabus e enfrentando barreiras do dia a dia, muitas mulheres mantêm a amamentação em toda a primeira infância. Para quem pensa que o peito é só acalento depois dos dois anos, engana-se: as propriedades nutritivas permanecem.

Renata Coutinho, da Folha de Pernambuco em 02/08/18 

“Não ia tirar essa felicidade dela e minha”, afirma a designer Laurinha Marinho que já amamenta Aurora faz quase 3 anos
Foto: Julya Caminha/ Folha de Pernambuco

Eduarda, 3 anos e quatro meses, filha da psicóloga Priscila Magalhães, 33. Aurora, 2 anos e 10 meses, primogênita da designer e blogueira Laurinha Marinho, 31. Mulheres e seus bebês que não se conhecem, mas que dividem uma história em comum e cada vez mais recorrente, principalmente entre as mães na casa dos 30 anos: a amamentação prolongada.

Quebrando tabus e enfrentando barreiras do dia a dia, que incluem os retornos das rotinas profissionais e do lar, muitas mulheres têm levado o aleitamento materno durante quase toda a primeira infância dos pequenos. Um ato de amor e compromisso, que ultrapassa apenas os ganhos já reconhecidos da amamentação para a saúde física e imunológica das crianças, chegando às esferas comportamentais, intelectuais e afetivas. O tema ganha visibilidade durante o Agosto Dourado, período de atenção às discussões sobre o aleitamento no País e também na Semana Mundial da Amamentação, celebrada do dia 1 até 7 deste mês.

Pelas orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS), o aleitamento materno deve ser exclusivo até os primeiros seis meses de vida do bebê (e somente em casos extraordinários e com indicação médica complementos podem ser adicionados). A partir dos seis meses em diante, sopas, papas, frutas devem ser introduzidas na dieta, mas com a manutenção do leite materno por pelo menos os dois anos do bebê. “A amamentação deve ser estimulada por dois anos ou mais e não tem nenhum problema prolongar. É preciso respeitar esta mulher no que ela deseja e também o filho”, destacou a coordenadora do Banco de Leite do Imip, Vilneide Braga.

A especialista afirmou que é mito achar que o leite da mulher perder benefícios e propriedades nutrientes com o passar do tempo. “Do 1º até o 7º dia do nascimento temos o leite do colostro, o leite de primeira fase. Ele tem alta densidade calórica e imunocomplexos que funcionam como uma vacina natural. Na segunda fase, do 8ª ao 14ª dia, há o leite e transição que se parece muito com o colostro. Na terceira fase, a partir do 15º dia, há o leite maduro que vai até três, quatro anos. Ele continua sendo um alimento importante com carboidratos, gorduras e imunocomplexos. Não é só para acalmar o bebê como muita gente pensa não”, esclareceu.

“Eu não sou uma ET”, brincou a designer Laurinha Marinho, sobre a decisão de permanecer dando de mamar a filha Aurora mesmo diante de olhares de reprovação até mesmo de familiares que acham que a menina está “grande”. “Não ia tirar essa felicidade dela e minha. Não sei quando vou tirar o peito, mas queria que partisse dela”, prosseguiu, narrando incomodo com o fato das pessoas ficarem horrorizadas com um tema que já deveria ter sido superado. Laurinha explicou que a filha sempre teve demanda livre ao seio, mas quando estava com 1 ano e meio, as mamadas passaram a acontecer apenas a noite, num acordo que vem dando certo com a criança.

O mamar noturno também acompanha a relação de Priscila e da pequena Eduarda. “No começo a gente sempre pensa que não vai conseguir amamentar nem um ano, já se foram três. Hoje em dia é mais para dormir, ela que pede. É nosso momento de trocas de carinhos físicos e de palavras. Ela se sente mais tranquila e acolhida. Como mãe me sinto muito realizada por ter conseguido amamentar o período recomendado de forma exclusiva e de dar continuidade por tanto tempo”, contou. Para Eduarda, o aleitamento foi também o remédio para problemas alérgicos, tanto que até hoje o único leite que ela toma é o que vem do seio da mãe.

Diferente do prazo prolongado para o desmame, a médica Vilneide Braga destacou que a regra de ouro para o início do aleitamento está na primeira hora de vida. Manejos atualizados da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) asseveram que mãe e filho precisam de contato pele a pele, inclusive para início do aleitamento, nos 60 minutos do pós-parto. “As cesarianas não contraindicam esse contato, até porque a maioria das cesarianas no Brasil não é de emergência e há uma equipe toda ali para observar e monitorar. Esse contato imediato promove a microbiota intestinal responsável pela proteção imunológica do bebê”, explicou.

O aleitamento de pronto também é responsável por prover nutrientes importantes para o desenvolvimento cerebral, que incide, inclusive, sobre o perfil de inteligência futura. Outros benefícios enumerados pela médica impactam diretamente sobre mortalidade e morbidade. O aleitamento exclusivo por seis meses reduz em 88% as chances de morte dos bebês, há 72% menos chances de internação por diarreia em menores de 5 anos; e 57% menos chances de internação por pneumonia nos menores e dois anos.

Programação
A Secretaria de Saúde do Estado, do Recife e o Imip estão com várias atividades este mês. Na próxima terça-feira (7), às 9h, haverá roda de conversa sobre mitos e verdades para as gestantes que fazem o acompanhamento pré-natal no Hospital Agamenon Magalhães. Também na terça, o Imip fará um café da manhã para as usuárias do banco de leite da unidade, palestras e homenagem a funcionários que se destacaram no tema. O Hospital da Mulher do Recife terá ações voltadas ao aleitamento com o público nos dias 9, 16 e 23.